Chacina em Fortaleza reflete crise da segurança pública do Ceará

Guerra de facções levou a aumento de homicídios na capital

SãO PAULO — A chacina que deixou 14 mortos na madrugada de sábado, na periferia de Fortaleza, no Ceará, aparece como mais um retrato do processo de degradação da segurança pública no Ceará — conforme O GLOBO revelou em dezembro na série de reportagens “A guerra do Brasil”. Entre 2013 e 2015, a cidade registrou os índices mais elevados de homicídios entre as capitais.

Em meio à repercussão negativa da chacina, o ministro da Justiça, Torquato Jardim, anunciou ontem à noite a criação de uma força-tarefa para ajudar na investigação por meio de membros da Secretaria Nacional de Segurança Pública, Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal e Departamento Penitenciário Nacional. Cinco suspeitos de ação nos homicídios já foram identificados.

De acordo com dados do Datasus, de 2001 e 2015 Fortaleza foi a quarta capital com maior número de homicídios no país: 17.984. A cidade só ficou atrás de São Paulo, Rio e Salvador.

Para especialistas, a violência no Ceará tem entre as causas a combinação de fatores como a falência do sistema carcerário, a lentidão do Judiciário para o julgamento de uma massa de presos provisórios que lotam as cadeias e a falta de investimentos em inteligência e integração entre as forças de segurança.

Um dos fatores locais apontados pelos estudiosos para explicar a chacina em Fortaleza é a quebra de um acordo de paz entre as facções do Ceará no ano passado. Em 2017, o Comando Vermelho se aliou à Família do Norte, com origem no Amazonas, e o PCC aos Guardiões do Estado (GDE) — que tem como marca a crueldade nos crimes. O resultado foi uma guerra que levou a um recrudescimento dos homicídios na capital, já que em 2016 houve queda nos índices.

Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública afirma que o país precisa de políticas públicas permanentes e não só reativas:

— O estado precisa atuar com inteligência e mostrar força investigando, prendendo e punindo — disse Lima, que defende integração das polícias e cobra celeridade do judiciário no julgamento de presos, que servem de “mão de obra barata para as facções”.

Coordenador do Laboratório de Estudos da Violência da Universidade Federal do Ceará (UFC), Cesar Barreira, também pede mais ações de inteligência:

— A política pública norteada pela lógica do confronto não pode seguir adiante. Violência se combate com investigação.

Fonte:  https://oglobo.globo.com/brasil/chacina-em-fortaleza-reflete-crise-da-seguranca-publica-do-ceara-22339597#ixzz55yLHgboS